MARTA CORTEZÃO é Profª de Português e Latim da UEA

 AS VEREDAS DO AMOR

     Não precisava ser um observador tenaz para perceber em Edu a profunda frustração e tristeza que emanavam de seu olhar.
      Sentado à sombra de uma árvore com os olhos fixos no horizonte e ao mesmo tempo no nada, divagava em seu mundo interior, cheio de mistérios. Nem o pôr-do-sol com seu crepúsculo matizando a grande abóbada celeste, nem a beleza do azul escuro das águas da baía de Tefé, naquele entardecer, poderiam arrancar de Edu qualquer movimento de aprovação que fosse. Aonde será que estavam seus pensamentos? O que o teria deixado tão perplexo? Será que sua dor fora causa de um amor mal resolvido? Só podia ser! O amor, quando não correspondido, tem a capacidade de atormentar mente e espírito humanos. Ao mesmo tempo pode trazer, em seu extremo, sensações de felicidade ímpar.
     De repente Edu baixou a cabeça e deixou pender dos dedos trêmulos uma folha de papel, que parecia ter sido lida inúmeras vezes. Aquele era o seu algoz, responsável por todo o seu sofrimento. Abriu-o lentamente e releu com uma melancolia típica de um romântico apaixonado: Tenho tanta coisa presa na garganta para lhe dizer que não consigo pensar em mais nada! Fico quase sem respiração, os suspiros são constantes e o tempo parece que pára longe de você. A ansiedade toma conta de mim em todos os momentos em que não está… e quando falo consigo tudo acalma, tudo faz sentido, nada é comparável ao que me tem dado sem que saiba…parece que voltei à infância, tipo menino ingênuo lançado no meio dos adultos que está a aprender a vida… e isso é sublime. Não paro de pensar em você, não sonho com outra coisa, não falo de mais nada, não tenho existido em mais nenhum lugar a não ser perto de você.
     Recuperei a vontade de escrever sem parar, reencontrei formas que já não imaginava que pudessem existir em mim: paixão, curiosidade sobre outra pessoa, vontade incontrolável de estar junto de você, mesmo que o ridículo e as parvoíces próprias de quem está louco por alguém, me façam sentir pequenino.
     Tuas palavras são a minha liberdade, teu olhar é combustível dos meus receios mais doces, os teus lábios são mistério adiado até ao cúmulo por mim, tua voz é feitiço que me tira o sono, a fome, o raciocínio, a normalidade enfim… tudo o que não interessa a quem como eu só em você vê um nexo para estar vivo.
     Tudo o que lhe digo sei que pode assustá-la, mas é impossível não o dizer, mentir para você ou fingir que não a desejo. É impossível não lhe falar desta forma, mesmo sabendo que fica sem jeito, porque é precisamente isso que me faz: não me deixa esconder os meus sentimentos e isso é único. Poderia inventar uma máscara que não me denunciasse tanto, para poder esconder o meu interesse por você e salvaguardar o mistério até onde fosse possível… mais importante de tudo é que não quero que me retribua nada, não procuro que goste de mim da mesma forma que eu. Apenas desejo com toda a força que me deixe ser isto tudo, que me deixe escrever-lhe e falar-lhe sempre e que isso não a afaste nunca de mim. Se um dia tiver a coragem de falar-lhe, sei que não serei capaz de dizer tudo o que escrevi, mas terei a certeza que no meu coração parará de chover e sol vai levantar-se todos os dias no meu rosto…. porque sei que a amo muito, mas que a mim mesmo...

     Mil Beijos
     Eduardo Henrique

     Edu amava Tina e não tinha tido a oportunidade e/ou a coragem de dizer-lhe. Mas não era apenas isso que o impedia de declarar seu amor havia outros empecilhos que o torturavam diuturnamente: Tina era noiva de seu melhor amigo e amava Marco intensamente. E para sua maior tristeza ela via em Edu o seu confessor, amigo e irmão.Tudo conspirava contra o seu amor, por isso a sua intensa melancolia, a vontade de isolar-se do mundo e de esconder-se de si mesmo. Edu não podia ser desleal com Marco, amigo de infância, de escola e agora de

 

 

 

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